Por Renate Krieger

A Bettina, nossa mãe convidada de hoje, mora na Alemanha, é casada com um indiano e tem duas filhas: Anita, de quase três anos, e Ariana, de sete meses quase completos.

É fato que cada criança é diferente e que também vem ao mundo de forma diferente – nenhum parto é igual. No caso da Bettina, de 37 anos, as duas experiências de parto não poderiam ter sido mais diversas: Anita nasceu de uma cirurgia cesárea programada e Ariana, de parto normal.

Na entrevista que deu por telefone ao Mães no Mundo, a brasileira natural de Pomerode (SC) mostrou que, também durante as gestações e o nascimento das meninas, manteve a atitude otimista e positiva, características que sempre contagiam as pessoas à sua volta e que nos fazem encarar aquilo que consideramos “drama” na vida de forma mais leve. “O importante é a criança, e a mãe poder fazer uma escolha que a deixe feliz”, afirmou.

Essa escolha nem sempre é possível – muitos partos normais acabam sendo cesáreas de emergência, por exemplo. Bettina acredita que tentar não criar expectativas demais sobre o parto pode ajudar a superar a decepção nesses casos. “São coisas que nós não controlamos.”

Leia abaixo o depoimento da jornalista:

Por que você decidiu ter a Anita, sua filha mais velha, por cesárea?

Anita estava sentada até muito tarde na gestação [a maior parte dos bebês costuma virar de cabeça para baixo por volta do oitavo mês]. Logo de cara, meu ginecologista aqui na Alemanha disse que seria necessário fazer uma cesárea e que, se eu quisesse fazer um parto normal, teria que escolher uma clínica diferente daquela que já tinha escolhido, já que eles não faziam parto com o bebê em posição pélvica porque consideravam o risco muito grande – e meu médico também.

Eu nem questionei muito essas afirmações dele porque, lendo um pouco a respeito do parto com o bebê em posicionamento pélvico [sentado], fiquei impressionada. Não sei, fiquei com medo de a cabeça da Anita ficar presa.

A decisão de fazer cesárea voluntariamente num país como a Alemanha – onde se estimula muito o parto normal – é uma decisão que assumo sem nenhum problema. Eu tinha as informações para tomar a minha decisão, e essa decisão se apoiou no seguinte critério: se for para a bebê ou eu corrermos qualquer tipo de risco, não vou fazer parto normal.

Mas o bebê ainda poderia ter virado até a hora do parto?

Minha parteira [as gestantes podem recorrer aos serviços de uma parteira para o pré- e o pós-Natal na Alemanha – o custo é pago pelo serviço público de saúde] me deu alguns exercícios para virar a Anita, que eu fiz, e eu até consegui me visualizar fazendo tanto um parto normal quanto uma cesárea.

Também existe uma técnica chamada “versão cefálica externa” que vira o bebê por fora.

Mas eu não estava disposta a fazer um parto vaginal a todo custo. Na minha opinião, a cirurgia cesárea é uma coisa mais rotineira nos hospitais, as equipes dominam. Claro que também tem um risco, tive que assinar vários documentos, mas me senti mais à vontade com essa escolha.

O engraçado foi que, durante a segunda gestação, tive a impressão que tanto o meu médico quanto a minha parteira acharam que eu ia escolher cesárea. Não sei se foi por eu ser brasileira e a taxa de cesarianas por lá ser tão alta, um fato conhecido por aqui (risos).

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“Não estava disposta a fazer um parto normal a todo custo”, diz Bettina

Quais foram as diferenças mais marcantes entre os dois partos para você?

Bem, dependendo do critério, eu poderia dizer que “gostei mais desse ou daquele parto”. Mas eles foram isso mesmo: diferentes.

Na cesárea da Anita, foi uma cirurgia programada, com dia e hora marcados. Eu não posso dizer que foi “divertido” porque é uma cirurgia, mas ela nasceu num clima bastante descontraído – em 20 minutos!

O médico estava conversando com meu marido e comigo e de repente interrompeu o papo para dizer que a Anita estava chegando.

Você disse que na Alemanha se estimula muito o parto normal. Você ficou decepcionada por ter tido uma cesárea na primeira gestação?

Eu pesquisei em alguns fóruns na internet na época em que decidi que a Anita iria nascer por cesárea para me informar. Fiquei com a impressão de que muitas mães criam muita expectativa em relação ao parto – o que é natural.

Mas eu acho importante a criança nascer bem e a mãe também ficar bem durante o parto. Desde que o caminho não prejudique ninguém, está tudo bem.

Se eu puder dar uma dica às mamães de primeira viagem, acho que é importante ler e se informar, mas não demais para não se decepcionar se as coisas não correrem exatamente da forma como se imaginou. Na Alemanha, não só em relação ao parto, tenho a impressão de que existe muito essa filosofia do “eu tenho que ter isso para criar bem o meu filho”, “tenho que fazer aquilo no parto…” e isso são coisas que nós não controlamos.

Por exemplo: ouvi muito sobre a necessidade do contato pele a pele logo depois do parto. Considero essencial, mas no caso da Anita, ela foi direto para o colo do pai, porque eu estava anestesiada, um pouco grogue e passando por cirurgia. Achei legal ele ter feito esse bonding com ela, já foi a concretização da formação da nossa família.

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Bettina na Índia, no dia de seu casamento

E o parto da Ariana, como foi?

Por não ter nenhuma ideia de como seria por causa do parto da Anita, achei que ela nasceria rapidinho (risos). Me preparei com acupuntura para o bebê poder sair bem.

Mas confesso que eu estava com muito medo de sentir dor – algo que acho que muito poucas mulheres [aqui na Alemanha] admitem.

Por outro lado, estava disposta a encarar o parto normal, principalmente porque eu não queria fazer uma cirurgia sem necessidade.

Eu não fiquei procurando informações na internet sobre o parto normal. E segui alguns conselhos de amigas.

Um deles foi de me entregar ao momento do parto, sem criar expectativas demais porque realmente é um acontecimento sobre o qual a gente não tem controle, não sabemos o que pode ou como ele vai acontecer.

Um outro conselho de amiga foi o de falar “sim”, de ter uma atitude positiva durante o parto. Eu estava falando muito “não”, muito consciente da dor das contrações, e de repente me lembrei desse conselho e comecei a falar “sim, bebê, vem, eu quero te conhecer logo”. Eu falava em português na sala de parto, então a equipe deve ter achado que eu era louca (risos).

Foi um parto com muita dor, mas rápido. Às 11h da noite eu estava em casa. Senti contrações e liguei para o hospital. Fiquei um pouco chocada porque a atendente me disse para ir “agora” porque eu tinha uma gravidez de risco pelo fato de já ter tido a primeira filha por cesárea. Fiquei assustada porque não me tinham dito nada disso antes.

Fui ao hospital sozinha porque meu marido ficou em casa cuidando da nossa filha mais velha. Pensamos que, como era o meu primeiro parto normal, iria demorar mais e então daria tempo de ele levar a Anita à escolinha e me acompanhar na hora do nascimento.

A bolsa estourou durante o ultrassom. Liguei para o Pukhraj para avisá-lo que provavelmente ia demorar bem menos do que pensamos. À 01h00 da manhã senti dores muito fortes, que ainda não tinha sentido, e pensei que a Ariana iria nascer ali. Liguei para o meu marido de novo – estava sentada em cima daquela bola de ioga na sala de parto da clínica.

A parteira de plantão fez o trabalho dela, mas nada além disso. Estranhei porque, no parto da Anita, a parteira de plantão me bajulou muito.

Quando levei a anestesia peridural, enquanto o Pukhraj também não tinha chegado ainda, pedi para dar a mão a alguém, mas tive que pedir duas vezes.

O Pukhraj chegou à 01h45 da manhã, e a Ariana nasceu pouco depois, às 02h38. O momento do nascimento foi legal, eu dizia muito “sim” e não estava grogue como durante a cesárea da Anita.

“O parto normal não foi da forma como eu imaginei – acho que pensei que parto normal é tudo igual, e é claro que não é.”

O problema veio depois do parto porque estava sangrando muito. Por isso, tiveram que fazer uma curetagem de emergência, sem anestesia. A curetagem doeu mais que o parto. Também fiquei com muita dor por algumas semanas depois do nascimento da Ariana, como se tivesse levado uma pancada dentro do corpo e estivesse roxo, mas os médicos que me examinaram disseram que não havia nada. Achei estranho.

Também tive uma laceração de grau 2. Eu não sentia muito bem esse rasgo, mas fiquei com medo de fazer xixi e de sentir tudo arder.

O parto normal não foi da forma que eu imaginei – acho que pensei que parto normal é tudo igual, e é claro que não é.

Pelo fato de eu ter tido que fazer uma curetagem, acho que eu optaria por uma cesárea se tivesse que decidir hoje. Na recuperação do parto da Anita, eu não me lembro muito bem, mas não tenho cicatriz e não sofri muito. Só fiquei um pouco receosa antes de tomar a anestesia, porque tinha oito profissionais na sala para aplicá-la.

Que lições você tira dessas duas experiências?

Eu acho que é preciso se encaminhar para o parto de mente aberta: 50% a favor do parto normal (ou natural, se a pessoa escolher não ter intervenção nenhuma de medicamentos, por exemplo) e 50% aberta para uma cirurgia cesárea.

O importante é a criança, e a mãe poder fazer uma escolha que a deixe feliz.

Eu não posso indicar um tipo de parto ou outro para as mulheres. No Brasil, ainda se faz muita cesariana, mas tenho a impressão de que a postura das pessoas está mudando. Tem mais gente considerando o parto vaginal e não a cesárea. Mas eu acho que, se uma mulher quiser fazer uma cesárea, também é preciso deixá-la em paz com essa escolha, tanto quanto com o parto vaginal. Afinal, somos adultos, informados e temos o nosso direito de fazer a nossa opção individual.

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