Ser mãe é uma negociação constante, especialmente quando os filhos vão ficando maiores e quando passam a querer exercer a própria independência. Já aos dois anos, por exemplo, as crianças começam a entender que são indivíduos separados da mãe e do pai, e testar os próprios limites vira uma atividade cada vez mais evidente e diária para a família inteira.

Muitas vezes, essas situações causam estresse e o conflito parece inevitável. Mas a nossa mãe convidada dessa semana mostra como solucionar as diferenças sem briga nem frustração.

Nesse artigo exclusivo para o Mães no Mundo, Andreia Howell explica o que é a Parentalidade Positiva e como ela constrói um relacionamento harmonioso entre pais e filhos.

Por Andreia Howell

Parentalidade positiva é uma abordagem pacífica, holística e colaborativa para educar as crianças e criar relacionamentos de harmonia. Incentiva os pais a escolherem ações não punitivas reconhecidas pelo desenvolvimento neurológico e alinhadas com as necessidades cognitivas, emocionais, sociais e sensoriais de cada criança.

Parentalidade positiva é sobre construir uma forte relação pais e filhos baseada no amor mútuo, na confiança e no respeito. Os pais orientam as crianças sendo um modelo e focando em soluções cooperativas que atendam às necessidades de todos os membros da família, em vez de tentar controlar o comportamento das crianças com subornos, gritos e punições.

As famílias que praticam parentalidade positiva experimentam mais alegria, paz, segurança e tranquilidade nas relações, levando a um vínculo mais forte e estável.

“A parentalidade e a convivência devem ser alegres, e podem ser, quando aprendemos a nos conectar em vez de controlar nossos filhos. Nós fomos criados em uma era diferente, na qual a maioria dos pais estavam focados na obediência e na modificação do comportamento.

Uma vez que entendemos que existe uma maneira mais respeitosa e satisfatória de viver em harmonia com os nossos filhos, e também com os outros, estaremos num caminho construtivo. Muitas vezes, basta saber que existe um novo paradigma de parentalidade e convivência para que alguém dê o primeiro passo na jornada de uma nova consciência.”

Dayna Martin, autora norte-americana que defende o “Peaceful Parenting” e fundadora do Unschooling United, movimento atualmente inativo dedicado à desescolarização

Escolhendo os verbos no processo de positividade:

“orientar” versus “controlar”

“ouvir” versus “assumir”

“conectar” versus “punir”

“encorajar” versus e”xigir”

“agir” versus “reagir”

Qual o papel dos pais?

O foco é ajudar os filhos a encontrar soluções para as diversas situações em vez de puni-los por problemas que surjam.

As crianças tem oportunidade de aprender com os próprios erros em vez de serem punidos e ficarem se perguntando o que eles podem fazer de forma diferente na próxima vez.

Quem se beneficia da parentalidade positiva?

Os princípios educativos positivos beneficiam pessoas de todas as idades e relacionamentos. Interação onde o respeito e aceitação predominam leva a encontrar soluções que atendam a todos, incluindo cônjuges, familiares, amigos, vizinhos, educadores. Enfim, a sociedade como um todo se beneficia!

 “Não há esforço mais radical em seu potencial para um mundo melhor do que transformar a maneira como criamos os nossos filhos” Marianne Williamsons, autora americana

 Crianças criadas em casas onde são amadas e aceitas incondicionalmente se tornam adultos resistentes e bem-sucedidos. Da mesma forma, os adultos que orientam essas crianças recriam suas próprias experiências de dor e desenvolvem mais compaixão e resiliência.

Essa abordagem holística nutre as crianças e visa à construção de relacionamentos a longo prazo. É fazer escolhas além das regras, é viver no momento presente (conceito de mindfulness).

É desenvolver:

  • Compaixão;
  • Pensamento crítico;
  • Equilibrio emocional;
  • Motivação intrínseca;
  • Habilidades de resolução de conflitos;
  • Resiliência;
  • Respeito próprio e com os outros;
  • Responsabilidade.

É uma jornada, um caminho que você decide trilhar. Confie no processo e não deixe o prefeccionismo tirar o seu foco, porque ser perfeito não é o foco.

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Dicas

Seguem algumas dicas para quem está mudando de paradigma e dando o primeiro passo rumo a um relacionamento que nutre e apoia.

  •  Você é o ponto de partida: seja o modelo! Os seus filhos refletem os seus comportamentos, mesmo aqueles que nós acreditamos serem imperceptíveis. Me arrisco a dizer que eles praticamente “leem” os nossos pensamentos, absorvem nossas emoções desde muito novos. Entre em contanto com os seus próprios sentimentos e as suas reações, trabalhe com a auto-aceitação e, se necessário, busque alternativas para conviver melhor com os próprios sentimentos, como por exemplo a meditação, contato com a natureza, yoga, leitura, autorreflexão, ou algum estilo de terapia que faça sentido para você. Promova o seu autoconhecimento.
  • Conexão/ Vínculo: Mantenha o foco na relação com o seu filho. Lembre-se que você está construindo a relação a cada momento, a cada resposta, a cada interação ou a falta dela.
  • Antes de reagir, pergunte-se: o que é mais importante a longo  prazo? A roupa manchada ou a autoestima do seu filho? O copo que virou ou a relação de confiança entre pais e filhos? Chegar no cinema (ou na festa) no horário ou o equilíbrio e a segurança emocional da família?
  • Haverá momentos que parece não estar “funcionando”: Em alguns momentos ou dias você terá dúvidas se este é realmente o melhor caminho, principalmente se esse conceito para você for novo e/ou pessoas pessimistas forem presença constante na sua vida. Mudar paradigmas é um processo e leva tempo. Mantenha o foco na qualidade do relacionamento.
  • Parentalidade positiva não é o mesmo que educação permissiva:  Só porque não há gritos, palmadas ou ataques físicos, não significa que os limites não podem ser definidos. Significa apenas que existem outras formas de mostrar às crianças o que é considerado adequado ou inadequado.

    Parentalidade positiva não significa que nós simplesmente permanecemos calmos e gentis e deixamos nossos filhos  fazer qualquer coisa e tudo o que eles querem. Pais positivos são muito envolvidos na definição de limites, mostrando onde estão os limites e quais comportamentos são aceitáveis, mas isso não é feito através de um comportamento violento ou atitudes fortes e agressivas.

    Quando você passa a entender o ponto de vista do seu filho com mais frequência, você se torna mais flexível e isso é bom. Porém, quando for necessário colocar limites, a  chave é definir o limite ANTES de ficar irritada e enquanto você ainda tem senso de humor. Se for possível enxergar com antecipação, já converse e coloque os limites antes de a situação se apresentar. Uma ferramenta muito importante é a Comunicacão não-violenta (CNV), que fortalece a empatia e facilita um acordo.

  • As emoções irão emergir: Crianças que são punidas aprendem que as emoções que os levaram a ter um mau comportamento são um problema, então elas sufocam esses sentimentos “ruins” em vez de aprender a lidar com eles. Isso não funciona: o ciúme, a frustração e a necessidade ainda estão presentes na bagagem emocional do seu filho, surgindo com a menor provocação. A única razão pela qual seu filho mantém os sentimentos escondidos é porque ele tem medo. Então, uma vez que você para de punir, essas emoções irão emergir.

    A birra ou mau humor não são um ataque pessoal a você. Quando seu filho o provoca ou desobedece, ele está expressando sentimentos que ele não consegue expressar com palavras.

    Isso não dá licença para machucar ou ofender ninguém. A chave é ajudar seu filho a trabalhar com os medos e emoções através da orientação, conexão e aceitação, ou “educação emocional” – infelizmente, são ações muito defasadas na sociedade, mas que precisam mudar se quisermos um mundo melhor.

“Você não pode ensinar as crianças a se comportarem melhor fazendo com que elas se sintam piores. Quando as crianças se sentem melhor, elas se comportam melhor.” Pam Leo, doula e autora do livro “Connection Parenting”

andreiahowell2 Andreia Howell mora nos Estados Unidos há dez anos e é uma forte defensora da parentalidade positiva. Dá aulas de balé e colabora com o site eusemfronteiras. Entrou em contato com o Mães no Mundo pela nossa página no Facebook.

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