Por Cíntia Cardoso

Eu, que já tive festa com palhaço (vide foto acima), bandinha,  mágico, cover do Michael Jackson e até transformista digo: não há país onde os aniversários infantis sejam mais valorizados que no Brasil. Não está acreditando, leia essa história aqui. Mesmo aquele “bolinho para não passar a data em branco” vai reunir mais gente que anos de festas de aniversários de crianças europeias.
A vantagem de ser uma mãe brasileira expatriada é que a pressão social para a festinha dos filhos desaparece. O problema é que a gente sai do Brasil, mas nem sempre o Brasil sai da gente. Aí, na hora de importar esse costume festivo brasileiro para o cultura local, o choque de civilizações está assegurado.

Acarajé-ostentação nos Alpes

Animada com o aniversário de 5 anos da filha, uma mãe baiana resolver alugar um salão de festas na Suíça onde mora com o marido e dois filhos. “Minha casa era pequena para receber todo mundo. Arrumei esse salão para poder convidar as crianças da turma da escola da minha filha, uns vizinhos, parentes do meu marido e amigos. Nada demais. Umas 50 pessoas”, disse .”Chamei uma conhecida para fazer uma mesa de doces, um arco de bolas e outra amiga colocou uma barraquinha de acarajé. Foi um espanto”. A mãe baiana disse que, boquiabertos, os convidados suíços nem conseguiram aproveitar a festinha. “Eles nem deram parabéns pra minha filha. Só ficavam perguntando quanto a gente tinha gastado na festa. Acharam que a gente tinha ganhado na loto”, contou rindo.

Palhaço da internet

O projeto de festa de 6 anos do meu filho começou modesto: só um bolinho com os amigos mais chegados.  Dez crianças. Achei razoável. “A criançada está acostumada com o frio. Vai dar para brincar um pouco na varanda”, pensei otimista. Na semana do aniversário veio uma onda de frio glacial. Sensação térmica de -10C. “Se as crianças brincarem lá fora vão morrer com hipotermia. O que eu vou fazer com 12 crianças [a lista cresceu] na sala de casa?”
Conselho da mãe finlandesa:
“Arruma um animador!”
Conselho da mãe espanhola: “Deixa pra comemorar o aniversário na primavera. Aí, você faz um piquenique no parque”. Adiar a festa por três meses? Complicado.
Ouvi as sábias palavras da mãe finlandesa que tinha organizado recentemente, na casa dela, uma festa com 17 crianças.
Então, faltando uma semana pro aniversário do meu filho, fui procurar um animador. Achei um mágico caríssimo que trazia uma pomba e um coelho (vivos!!!) para o seu número de 35 minutos. “Non, merci.”
Fui vendo a lista de possibilidades, todo mundo já estava ocupado com outros eventos, até chegar ao site de um palhaço (eu detesto palhaço).  Entre eu mesma ter que me virar com 12 crianças ou superar a ojeriza a palhaços, fiquei com a segunda opção. Depois de fechado o contrato, ainda fiquei temerosa imaginando um palhaço psicopata na minha casa. Mas, para minha surpresa, o palhaço da internet foi um sucesso. Gentil, amável com as crianças apesar de alguns momentos de tensão de ver o cidadão andando com um monociclo no meio da minha sala.

Geração saúde 
Numa vibe yoga e low sugar, a professora da escolinha do bairro no interior da França resolveu organizar uma festa para os aniversariantes do mês. Detalhe: sem bolo, sem balas e sem açúcar. Os pais das crianças aniversariantes tinham que levar frutas de uma lista previamente escolhida pela professora e os alunos. Juntas, as crianças fizeram uns minutos de meditação, prepararam uma grande salada de frutas e cantaram “Parabéns” em umas seis línguas. Todas estavam super zen e empolgadas. #ageofaquarius

Um convidado para cada ano de vida

Algumas mães francesas levam ao pé da letra o conselho de convidar um amiguinho para cada ano de vida do aniversariante. Assim, meu filho mais velho, foi a um aniversário de 3 anos onde só havia 4 crianças (o aniversariante e mais 3). Confesso que estranhei. Os pais deixaram os filhos  sozinhos na festinha e só voltaram para buscar no horário combinado. No Brasil, segundo uma amiga, uma festa desse tipo só acontece entre adolescentes. Mas, em Roma como os romanos, fui para casa  com o coração meio apertado e voltei para buscar meu filhote duas horas depois. Ele estava vivinho da Silva e  contentíssimo. Lição aprendida: nunca subestime os filhos.

Pai malabarista

Aqui na Europa, onde impera a lei do “faça você mesmo”, os pais do aniversariante que se virem para animar a criançada.  Um pai me contou que passou horas no youtube aprendendo a fazer esculturas de bola e malabarismo (!!). A mãe fez um megabolo também com tutorial da internet e ainda organizou um workshop de maquiagem para os convidados (meninos e meninas). Meu filho voltou para casa com uma maquiagem de homem-aranha super profissional feita pela mãe da amiguinha.

Ai, essas mães que nos humilham com esses tutoriais do Pintarest…

A importância de estar preparada

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Toda mãe que não tem muito jeito para trabalhos manuais tem pesadelos com esse post sobre bolos feios. Ninguém quer submeter o filho a um trauma desses.  A Tatiana, uma mãe brasileira que mora em Toulouse, conta que, mesmo não sendo muito comum profissionalizar a organização de festas na França, ela preferiu não arriscar.

Fazer festa de criança na França parece fácil, em um país onde até o bolo pode ser encomendado pela internet – mas não é. Se você não tem aptidão para trabalhos manuais e para cozinhar, a decoração e os comes e bebes serão um fiasco. Tenho experiência em celebração mas não tenho capacidade de organizar uma festa legal (digo legal “estilo Brasil”, com decoração super bonita e chamativa). Fiz a festa de 1 ano da minha filha no Brasil: minhas únicas preocupações foram com a lista de convidados, enfeites de mesa e com o ímã de geladeira, que seria distribuído no final da festa. Festa impecável e divertida. As festas de 2 e 3 anos foram na França e bem diferentes do Brasil: só a animação era igual. O tema (festa de brasileiro tem que ter tema) foi “Minnie Mouse”; comprei tudo pela internet (decoração, orelhinhas da Minnie e do Mickey para as crianças, balão…) e demos a festa na sala de aula de uma academia, Ovalie Fitness, em Colomiers. Contratei duas animadoras (que de animadas não tinham nada) e um pula pula. O pula pula foi a salvação da lavoura. O bolo e os salgados foram feitos por cozinheiras brasileiras, então estavam a contento.

No final da festa, o trauma foi a limpeza: tinha pirulito colado até nos steps. Esse fato foi primordial para fazermos a festa de 3 anos em outro local. Escolhemos um parquinho e pedimos que a mesa onde as crianças almoçariam (pseudo almoço: nugget com fritas) e cantariam parabéns, tivesse a decoração (comprada por mim: toalha de mesa, prato, copos e guardanapos) do tema desse ano, “Princesas Disney”. Nessa última festa, não tive muitos problemas, já que só tinham 4 crianças que não eram brasileiras, ou seja: os pais ficaram conosco o tempo todo, mesmo sabendo que os comes e bebes (e toda a diversão) ficariam para os filhos. A grande desvantagem foi não poder levar um bolo decorado com o tema da festa. As crianças se acabaram de brincar e foram embora muito felizes (e eu também, que não me preocupei com a limpeza), principalmente a minha filha, cheia de presentes.

Tatiana, mãe da Marina, 3, e do Martin, de dois meses.

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