Por Cíntia Cardoso

Ric, um menino de 3 anos que ama capoeira, o homem-aranha, carrinhos e natação, acabou de descobrir uma nova paixão nessa vidinha tão curta: o balé clássico. A entrada da dança na rotina do Ricardo foi uma sugestão da mãe. “Sou uma mãe de primeira viagem, mas sou do time das calmas. Dou a ele um leque de opções, mesmo que eu não goste delas. Dou comida que nem consigo provar, levo a baile de carnaval, à praia…”, conta rindo Daniela. “Seguindo a linha de filho é para o mundo, interessei-me pelo balé oferecido pela creche. Paralelamente, o ortopedista confirmou que ele tem a pisada para dentro e uma frouxidão ligamentar (congênita) e sugeriu atividades físicas como andar em areia”.

A Dani e o Ric moram no Rio de Janeiro, mas, nem por isso, a opção de caminhar à beira-mar é uma coisa simples. Trabalhando de segunda à sexta e morando a alguns quilômetros da praia, essa alternativa de tratamento para o pé do Ric foi logo descartada.

“Só poderia aos domingos, já que ele fica na creche de segunda à sexta de 7:20h às 18:20h”. Ricardo já  faz natação, indicada por problemas respiratórios, e a capoeira, praticada para melhorar a coordenação e disciplina. O balé seria apenas mais uma atividade na agenda movimentada desse menino gracioso de cabelos cacheados. No entanto, o que parecia uma escolha simples virou, praticamente, um combate.

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Ric ensaia passos de balé em casa.

Piadinhas machistas

“Inscrevi meu filho feliz da vida nas aulas de dança. Ele, aliás, ama a Frozen, as bailarinas e a LadyBug. Mas aí começaram os questionamentos, preocupações e preconceitos velados (em forma de piadinhas). Na verdade os questionamentos e preocupações vieram para mim e, as piadas, para meu marido, que quebrava o ciclo, explicando a importância da atividade física para o filho”, explica Daniela.

 Além de ter que lidar com comentários desagradáveis, Daniela e Ric também tiveram outra dificuldade para preparar o futuro Mikhail Baryshnikov para as aulas: as academias de dança não estão preparadas para acolher meninos pequenos que se interessam por balé clássico. “Com que roupa ele vai?  Que roupas usam os meninos? Collant? Não achei nada”.

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Daniela descobriu que, em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, em pleno século 21, as lojas de artigos esportivos não têm nenhuma opção para futuros bailarinos, o que afasta ainda mais os meninos das sapatilhas. Os acessórios de dança continuam a reproduzir os estereótipos de um mundo feminino idealizado onde tudo é rosa, com florzinhas, corações e babados. O jeito foi improvisar. “Consegui um short de elanca que deveria ser justo, mas não é porque ele é muito magro (mais de 1m e 13kg) e, quanto à blusa, esquece, se não for collant nada fica justo”, disse a mãe que buscou inspiração para vestir o futuro  Benjamin Millepied em sites estrangeiros.

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 Ric, um pioneiro

A didática do ensino de balé para um menino da idade do Ricardo também acabou sendo mais um desafio. Daniela conta que a professora estava preocupada: “O balé masculino e o feminino são diferentes. O feminino, que é o que pratico aqui, é com gestos femininos. O ballet masculino tem gestual diferente e é mais de força, pois o homem sustenta a mulher. Normalmente não se inicia antes dos 6 anos, Ricardo só tem 3 anos.”

“Mesmo que ele use gestos femininos por imitação das amigas -como já fazia, aliás-, isso não me incomodava porque não iria determinar a vida dele. A professora então perguntou: ‘E o pai do Ric, ele não vai se incomodar?'”

Esse questionamento da professora mostra o quanto de ranço machista ainda persiste na sociedade brasileira, mas, com muita paciência, Daniela respondeu que, para o pai, que volta e meia é alvo de piadinhas, o balé é “uma fisioterapia”, “e apenas um exercício a mais para o pé e para auxiliar na postura”.

Mesmo assim, a professora adaptou às aulas para que o Ricardo se prepare para futuros pas de deux. “Ela passou a mostrar figuras masculinas, gestuais masculinos e um personagem para as apresentações da turma. Fiquei tocada!”

 O projeto de dança do Ricardo começou no final do ano passado e só se realizou agora. “Esse tempo foi bom para todos se acostumarem com a ideia. Mas eu ainda escuto, ‘só você mesmo, Dani'”.

Alheio à polêmica, Ricardo, o menino que só quer dançar, aproveita com alegria cada passo novo. “O dia do balé é ansiosamente esperado pelo Ric, mais do que a capoeira, e soube que, uma amiguinha que queria sair das aulas, ficou por causa dele. É o amor!”

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