Por Renate Krieger

O (des)respeito aos limites de afetividade de uma criança – ou seja, o quanto ela quer cumprimentar, abraçar e beijar outras pessoas – é um assunto que me acompanha há muito tempo e nas diferentes culturas que pude conhecer ao longo da vida.

Fico muito incomodada com o desrespeito da vontade de crianças pelos adultos. Eu só me dei conta agora, mas já senti algo disso na minha primeira gravidez, durante a qual tive momentos em que me sentia “apenas uma barriga”. No trabalho, pessoas (alemães) que nunca falavam comigo passaram a puxar papo – o que achei ótimo, mas não quando só comentam que “tua barriga tá enorme” e esse é o único assunto que as pessoas, de repente, acham que tem em comum com você – e se sentem no direito de dar “conselhos” mesmo quando você não pediu.

Não estou fazendo uma crítica ao que a chegada de um bebê ou a presença de uma criança representam para as pessoas, independentemente de serem da família. Em pelo menos três países onde morei – Brasil, Egito, Estados Unidos e agora, durante a minha passagem prolongada pelo Marrocos – as crianças são recebidas com festa, geram alegria por onde passam, são bem vindas. O que na Alemanha nem sempre é o caso (mas isso é assunto para outro texto).

O que quero é propor uma reflexão sobre o quanto exigimos das nossas crianças no que diz respeito ao julgamento delas sobre os outros. Essas pequeninas pessoas, afinal, são exatamente isso: pequeninas pessoas e, se não adquiriram ainda uma capacidade de discernimento, na minha opinião, agem de acordo com o que lhes parece certo ou errado.

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Ao ser forçada a dar cumprimentos, a criança pode entender que não é dona da própria vontade

Estratégias de aproximação

Quando moramos no Egito, só tínhamos a O., nossa filha mais velha. Ela é loura de olhos azuis e acho que chamava bastante atenção. Uma vez passamos pelo Cairo, meu marido a carregava no canguru e ficou cansado porque teve de afastar as pessoas com os braços para que não dessem beijos na bebê. Era como se ele estivesse mesmo nadando em meio a um mar de gente.

Numa outra situação, eu estava com a O. no colo e um egípcio puxou conversa comigo e com meu marido. Foi só eu olhar para o lado e pronto: a esposa do homem já estava beijando a menina no rosto e querendo tirar fotos. Neguei.

A mesma coisa aconteceu com a M. aqui no Marrocos: durante um almoço num restaurante, um cliente do local acabou de comer, levantou, deixou dois iogurtes para nós na mesa e puxou a minha bebê de dez meses no meu braço para beijá-la. Tive que intervir, sendo firme e dizendo “não!”, afastando-o.

Ofendidíssimo, ele foi embora.

Também já houve situações em que um grupo de meninas percebeu que O. estava sozinha porque meu marido e eu estávamos tirando a mais nova do carro. Ela ficou paralisada ao ser beijada pelas garotas, que na minha visão sabiam que tinham passado do limite: só deu tempo de olhar de cara feia – já que elas saíram correndo.

Consentimento

Aqui no Marrocos e no Egito (mas não só), tenho a impressão de que as pessoas acham natural a criança estar sempre disponível para ser beijada e abraçada.
Como mãe, me sinto incomodada porque conheço minhas filhas e, especialmente no caso da mais velha, de três anos, sei que ela rejeita o contato com pessoas que não conhece exatamente por isso: ela não conhece.

E ninguém aqui pergunta a ela se ela quer falar oi. Já vão pegando na bochecha, passando a mão no cabelo, querendo pegar no colo, e quando eu peço que se afastem, que não perguntaram a ela ou a mim se podiam dar beijos ou tirar fotos, ficam estarrecidos e sem entender o motivo de tanta “resistência” e “dureza” (já ouvi essas palavras aqui).

Entendam: eu não gosto de ser ríspida com as pessoas e chego a me questionar às vezes, pensando se não estou exagerando. Mas as necessidades das minhas crianças vem em primeiro lugar.

Pelo menos, atualmente, O. me puxa de lado e já diz: “Mamãe, eu não gosto desse moço.” “Mamãe, estou com medo dessa moça”.

Não proíbo minhas filhas de falar com as pessoas – pelo contrário. Considero minha família muito internacional e aberta aos mais diferentes comportamentos e culturas e acho muito importante que minhas crianças saibam se aproximar dos outros, sendo cordiais e educadas. E essa máxima vale não só para estranhos que encontramos durante as nossas viagens, mas igualmente (ou principalmente) para a família – na qual também existem pessoas que reagem ofendidas quando, depois de muito tempo por contato apenas por Skype ou telefone, a primeira (e segunda e terceira, também, dependendo da fase das crianças) aproximação não é exatamente um “correr para o abraço”.

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Gestos de afeto tendem a ser mais valorizados quando não são “obrigatórios”, segundo especialistas

Porém, espero uma atitude cordial em relação às minhas filhas também. Por isso, me identifiquei muito com o artigo da jornalista americana Katia Hetter, que cobre assuntos relacionados à educação para a emissora CNN.

Sobre a filha, de agora sete anos de idade, Hetter escreveu: “Ela não precisa abraçar ou beijar ninguém só porque eu estou mandando – nem mesmo eu. Eu não vou passar por cima dos instintos, atualmente fortes, da minha criança de não tocar alguém que ela escolheu não tocar. Cheguei à conclusão de que o corpo dela, afinal, é dela.”

Abuso

Segundo a matéria de Hetter (leia aqui), forçar uma criança a dar beijos e abraços transmite a ela a mensagem de colocar de lado aquilo que lhe parece certo.

“Ensinamos a elas que o corpo delas não é delas”, afirmou Irene van der Zande, co-fundadora e diretora executiva da organização sem fins lucrativos Kidpower Teenpower Fullpower International, citada no artigo.

“Isso leva [ou pode levar] ao abuso sexual de crianças, a que meninas adolescentes se submetam a um comportamento sexual ‘para que ele goste de mim’ e crianças a aguentarem bullying porque ‘todo mundo está se divertindo'”, afirma van der Zande.

Segundo Katia Hetter, é importante ensinar a criança a confiar nos próprios instintos sobre as pessoas – e também detectar um comportamento diferente nos pequenos. Frequentemente, segundo fontes citadas por Hetter no texto, a criança sabe quando alguma coisa está errada com um vizinho, a professora da escola ou um tio ou amigo da família.

Naturalmente, essas pessoas não precisam ser “predadores sexuais”. “Talvez ele [seu cunhado, por exemplo] seja apenas alguém sem noção de limites. Talvez ele faça cócegas demais, o que pode ser uma tortura para alguém que não gosta. Ou ele é, de fato, um predador sexual”, escreveu Hetter.

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Opções e valorização do carinho

A jornalista ainda aponta que também sempre faz questão de que a filha seja educada, tanto em casa quanto fora. Ela lista algumas alternativas para dar às crianças quando se recusam a cumprimentar as pessoas com beijos ou abraços, como um “toca aqui” (“dá cá mais cinco”) ou um aperto de mão.

Além disso, ao não forçar a criança a demonstrar afeto “quando mandada” ou “para não ofender a tia ou a avó”, quando o carinho parte da criança, “você sabe que é real.”

E tem coisa que derrete mais o coração da gente do que seu filho ou sua filha chegarem do nada, te darem um abraço e dizerem: “Eu te amo”?

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