Por Cíntia Cardoso 

Nesses últimos dias, muito tem se falado sobre carga mental. Talvez o conceito não lhe pareça familiar mas, com certeza, as  mulheres, sobretudo as mães, conhecem muito bem essa questão.

Confesso que fiquei bem aliviada ao ver que esse burburinho constante na minha cabeça, essa lista interminável de micro, pequenas e grandes coisas para resolver todos os dias -da cor da meia que meu filho vai usar na escola a uma decisão importante sobre meu futuro profissional- tem um nome.

A pesquisadora Nicole Brais, da Universidade Laval no Québec, Canadá, define a “carga mental” como o “trabalho de gestão, organização e de planejamento que é invisível, constante e inevitável”. O objetivo dessa missão hercúlea é o de assegurar o bom funcionamento da máquina familiar.

E quem carrega o peso dessa responsabilidade? As mulheres, claro. Um estudo feito na França mostra que as mulheres assumem 64% das tarefas domésticas e 71% das tarefas relativas aos filhos. Provavelmente essa é a realidade de grande parte dos países – se não for até pior.

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A cartunista francesa Emma, de 36 anos, coloca o dedo nessa ferida com história em quadrinhos publicada na sua página do Facebook (alguns desses quadrinhos ilustram nosso texto).

Em entrevista, ela explica o quanto esse fardo da carga mental sobrecarrega as mulheres. “Quando se vive em um casal, apenas, o fato de fazer ou não fazer tal coisa tem um impacto somente na vida dos dois. Dá para relaxar. Mas, com filhos, a coisa complica. Não podemos deixar para lá a consulta no médico. A vida do nosso pequeno está em risco. Nesse momento da nossa vida, não é apenas a carga mental que aumenta, mas essa carga torna-se crítica pois qualquer esquecimento pode ter consequências graves”, explica. Ou seja, além das experiências positivas que a maternidade nos traz, há também um adicional de responsabilidade.

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Olenka*, uma mamãe polonesa, testemunhou ao Mães no Mundo um dia típico. Depois de uma conversa, chegamos à conclusão de que ela é um bom exemplo do excesso de carga mental. Mãe de dois filhos, de 6 e 3 anos, ela decidiu sair do emprego de gerente de marketing de uma grande multinacional após o nascimento do seu segundo filho. Mas, sem por isso, sua vida ficou mais “light”.

(*Olenka é um nome fictício. “Não é muito elegante eu ficar reclamando do marido em público”, justificou.)

Jornada simplificada da mamãe Olenka

8:00: Acompanhada do filho de 2 anos leva o filho de 6 anos para a escola a pé. (O marido vai direto para o trabalho para evitar engarrafamentos.)

8:30: O filho #1 já está na escola. É hora de levar o filho #2 para brincar na pracinha um pouco. Para o micro passeio, ela teve que preparar uma bolsa com fraldas, lenços umedecidos, biscoito, água, chapéu contra o calor etc.)

9:30: Passa no supermercado, mas o filho faz um super cocô e ela tem que correr para casa e desiste de comprar metade da lista (Ainda não vai ser dessa vez que ela vai comprar a tinta pra retocar a raiz do cabelo).

Entre 9:45 e 10:45: Ela faz o almoço, separa roupas que não cabem mais no mais velho, mas podem servir para o mais novo, liga para o banco, paga contas pela internet, marca horário com o bombeiro hidráulico e é hora de pegar filho #1 na escola. Ele só almoça na cantina duas vezes por semana. No resto da semana, ela tem que pensar em um menu equilibrado e que não provoque reações alérgicas no filho que é intolerante ao glúten.)

11:20: Buscar filho #1 na escola, leva pra casa, dá almoço para os dois, dá o remédio (liga pra farmácia para encomendar mais remédio e lembra que, primeiro, precisa marcar consulta no pediatra).

13:00: Levar filho #1 de volta para a escola e filho #2 para o fonoaudiólogo (o pai nem sabe o endereço da profissional que cuida do filho. Aliás, foi a mãe que desconfiou que o filho precisava de uma ajudinha e fez todo o processo para achar uma fonoaudióloga, encontrar um horário compatível etc.).

14:00: Fim da sessão de fonoaudiologia. Em casa, bota o filho #2 para dormir. Enquanto ele cochila, ela arruma a casa, estende a roupa que estava na máquina, junta restos de tubo de papel higiênico para o trabalho na escola do filho, marca consulta no ortopedista para a mãe dela, lava o banheiro, separa os recibos para o imposto de renda, pensa no que vai fazer pro jantar.

16:15: pega o filho#1 na escola, leva pra casa, brinca com as crianças e começa a fazer a janta.

19:30: a família janta. O pai brinca um pouco com os meninos e lava a louça.

20:30: Ela bota a criançada pra dormir, vai tomar um banho e faz uma depilação relâmpago.

22:30: Todos dormem e ela vai, enfim, ver uma série do Netflix. Quando a série acaba, o marido dorme rapidinho. Mas ela dá uma olhada na previsão do tempo para decidir com que roupa o filho vai pra escola, tira a carne do congelador para o almoço do dia seguinte, programa o próximo final de semana etc.

Recentemente, essa mãe começou a apresentar umas placas de psoríase nas mãos. O médico atribui ao estresse. Reação do marido: “Mas você nem está trabalhando, por que estaria estressada?”

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Para quem ficou curiosa, o texto original da cartunista francesa, “Fallait demander” (era só pedir, em português), está aqui.

Temos uma longa caminhada por uma divisão mais justa de tarefas – especialmente tentando não antagonizar com os nossos parceiros, trazendo-os para o nosso lado -, mas identificar que nosso caso tem um nome e que não precisamos ser responsáveis por tudo o tempo todo já é um começo.

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