Por Cíntia Cardoso

Os franceses têm um jeito muito peculiar para denominar as crianças consideradas como mimadas: “l’enfant roi” (criança-rei, em português).  Em um país que não tem muita simpatia pela monarquia (basta pensar na Revolução Francesa), como eles lidam com o reino infantil?

A jornalista americana Pamela Druckerman, autora do best-seller Crianças francesas não fazem manha , ficou impressionada com a educação das crianças francesas. Em comparação com as crianças americanas, a jornalista notou que as francesas se comportam melhor à mesa, são mais receptivas a novos alimentos e fazem bem menos pirraça em público. O quanto disse é exagero e o quanto é verdade?

Mães no Mundo conversou com a educadora francesa Natty Bourreau. Com 25 anos de experiência em educação infantil e mãe de uma menina, Natty evita a tudo custo fazer generalizações, mas analisa que existe, sim, um jeito à francesa de ser mãe e de administrar a família. Leia abaixo os melhores momentos do nosso bate-papo.

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A educadora infantil Natty Boureau.

“Acho que a mãe francesa não se vê, em geral, apenas como mãe. Obviamente elas apreciam a maternidade, mas não acham que esse é o papel principal das suas vidas”, avalia Natty Boureau. A educadora infantil, que já trabalhou com crianças nos Estados Unidos, no Mali e em Marrocos, disse que sentiu na pele esse estilo de vida das mães francesas.

“Quando escolhi ficar em casa, passar mais tempo com minha filha, reorganizar a carreira em função da minha filha, fui muito criticada. Acredito que isso tenha acontecido em primeiro lugar porque elas não têm o mesmo ponto de vista. E, em segundo lugar, porque minha decisão evoca nelas um certo sentimento de culpa. Nunca é uma decisão fácil. Nem a escolha de se dedicar o máximo possível à carreira nem a escolha de ser mãe em tempo integral”.

Para Natty, a maternidade tornou-se prioridade. “Sempre foi um dilema para mim de deixar minha própria filha em uma creche para cuidar de outras crianças como educadora. Por isso, em vez de trabalhar na Suíça (Natty mora na fronteira da França com Genebra) com um alto salário e ser diretora de uma escola, resolvi me readaptar”, contou ao blog.

Já para boa parte das suas compatriotas, a maternidade, explica educadora, entra como mais um elemento da vida de muitas mulheres francesas. Um elemento que, naturalmente, traz muitas mudanças, mas que não é visto como o centro de gravidade das suas vidas. É muito comum, por exemplo, os pais deixarem os filhos pequenos (às vezes ainda bebês) com os avôs e avós para viajarem um final de semana ou até mesmo algumas semanas. A vida do casal ou o convívio com os amigos continua a ser essencial.

“As mulheres francesas se sentem bem muito em sociedade. Sei que parece um clichê a imagem da parisiense que toma champagne, mas é verdade que a vida social é muito importante para as francesas. Por isso, para muitas, ser mãe em tempo integral pode parecer incompatível com esse estilo de vida”, pondera Natty.

Comer bem é um pilar da educação

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A surpresa da jornalista Pamela Druckerman ao ver as crianças francesas à mesa comendo pacientemente seus legumes é, para Natty, o reflexo da atitude das mães e pais franceses em relação aos filhos.

“Mesmo se as mães francesas não vivem em função dos filhos, culturalmente,  a hora da refeição é muito importante para os pais e para as crianças. Muito rapidamente, as mães não querem fazer comida separada para as crianças, o mesmo prato é feito para todos. Logo, as crianças são culturalmente habituadas a comer junto com os adultos. Isso faz com que elas se adaptem desde cedo a diversos tipos de alimentos”, explica Natty.  A escola repete essa ênfase na gastronomia. Aqui, inclusive, já mostramos as táticas nas escolas francesas para fazer as crianças provarem de tudo.

Esse modo de vida menos centrado nas crianças, tem, para a educadora, vantagens e desvantagens. O ponto positivo é que não há espaço para o enfant roi esperar que os pais façam tudo por eles e satisfaçam a todos os seus desejos. Mas a desvantagem é que as crianças que têm que se adaptar o tempo todo ao mundo dos adultos.

Isso vale não apenas para a comida mas, também, para outros aspectos da vida. “O fato de a mãe francesa não assumir o papel de mãe como o único da sua existência explica muitas coisas. À noite, a criança precisa dormir; à mesa, é preciso comer. O foco não é tanto nas crianças”, observa a educadora francesa.

“A frustração amadurece”

“Nós não somos uma cultura de negociação, nem de escuta. Mantemos uma relação muito hierárquica com as crianças”, lamenta Natty. “No meu trabalho como educadora, eu retrabalho minha cultura francesa. Eu escuto as crianças. Sempre procuro entender seu ponto de vista, mas sem perder o norte de que sou o chefe. Sou eu que decido pelas crianças”.

Inspirada pelos ensinamentos de Rudolf Steiner e de Maria Montessori, por exemplo, Natty organiza cursos também educação para os pais na sua escola. “É preciso valorizar o respeito da personalidade única de cada criança. Estimular a compreensão e a paciência para que as crianças cresçam num ambiente saudável, acolhedor, mas com regras”.

Para Natty, o “savoir faire” francês na criação das crianças tem que ser temperado com mais empatia. “Nas gerações mais novas, percebo que ainda está muito arraigado esse conceito de que a frustração amadurece ainda que de modo inconsciente. Isso leva a alguns excessos como deixar bebês chorando para ‘exercitar os pulmões’. Mas, felizmente, hoje há cada vez mais pessoas que refletem sobre a educação das crianças e lutam contra esses reflexos adquiridos”.

 

 

 

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