Por Cíntia Cardoso

Os últimos dias do noticiário no Brasil têm mostrado que o racismo é um assunto que está muito longe de estar superado como, muitas vezes, queremos fazer acreditar. Em São Paulo, um menino foi humilhado pelos seguranças de um shopping e quase expulso de um restaurante. No Rio de Janeiro, outro menino de classe média que estava na fila do caixa foi acusado de furto em um supermercado. Essas crianças têm uma coisa em comum: a pele negra e o fato de ela estar associada à marginalização social.

Infelizmente esses casos não sāo exceção e milhões de outras crianças negras, pardas ou não-brancas podem enfrentar, um dia, uma situação de racismo. E será que eles estarão preparados? E vocês, mães de crianças brancas, será que elas estão preparadas para não reproduzirem estereótipos racistas na relação com os amiguinhos de outras cores?

Baseada na minha experiência de criança negra no Brasil nos anos 80, vou dividir com vocês as técnicas (intuitivas) que meus pais usaram para que me sentisse preparada para enfrentar eventuais situações de racismo.

1-Usar situações do cotidiano

Não é preciso fazer um discurso, preparar uma fala formal. Basta usar situações do dia a dia. Um comercial na tevê, um livro… Por exemplo, ao ver um modelo, um ator ou atriz negros, elogie o seu talento, faça comentários positivos. Isso vale muito mais do que uma fala de horas. Isso vale para mamães de todas as cores.

2-Ir além do conteúdo da escola

Não faltam autores, intelectuais, atrizes, músicos, pintores e livros para mostrar. Se a educação formal muitas vezes peca por não valorizar a contribuição de africanos, de indígenas e outras culturas, cabe a nós darmos aos nossos filhos essas informações.

Um exemplo: o desenho Kiriku e a Feiticeira, sobre o menino superdotado Kiriku, que se tornou conhecido no mundo inteiro e ensina a crianças e a adultos também.

3-Não fingir que não existe racismo

O discurso de que somos todos iguais é muito bonito, mas as próprias crianças sentem que a desigualdade existe. Na minha experiência, o melhor que meus pais fizeram por mim foi me mostrar que todos temos, sim, direitos iguais, mas  que, infelizmente, não somos tratados da mesma forma em muitos lugares dependendo da cor da nossa pele, da religião ou da origem social. Aprendi com meus pais, porém, a não tolerar injustiças, a não me calar ao ouvir piadinhas maldosas ou racistas.

4-Mostrar modelos positivos

Quando era criança no Brasil nos anos 80, não passava na TV nenhum comercial com crianças ou adultos negros. Atores negros faziam, essencialmente, papéis de empregados domésticos ou escravos. Também não havia produtos para cabelos afro nas lojas. Meus pais, então, embarcaram numa jornada para me mostrar exemplos que valorizassem minha autoestima. Meu pai comprava para mim a revista Ebony onde eu pude ver modelos negras, médicos, advogados… Para mim, aos 8/9 anos de idade, poder brincar com bonecas negras compradas em importadoras de brinquedos e ver uma outra realidade foram essenciais para o meu desenvolvimento.

Meus filhos, que nasceram com a pele clara, terão outros desafios nesse mundo desigual. E o principal deles, é, justamente, fazer com que eles sejam capazes de identificar essas injustiças e sejam fortes o suficiente para não aceitarem nenhuma forma de racismo.

 

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