Por Renate Krieger

Durante a viagem de motor-home da minha pequena família pelo Marrocos e pelo sul da Europa, pela primeira vez na vida me deparei com o conceito de unschooling, ou desescolarização, depois que dois casais de alemães me falaram de seus planos de morar em Portugal – porque, lá, não tinham que levar em consideração a obrigatoriedade de frequentar a escola que existe na Alemanha.

Quando morei nos Estados Unidos, ouvi muito falar no home schooling, ou escolarização em casa – uma tradição que vem desde os tempos do pioneirismo naquele país e que considero uma boa ideia.

Mas confesso que, apesar de admirar imensamente as amigas que optaram por essa via educacional para os filhos, não me sinto capaz de fazê-lo por não saber se teria o conhecimento necessário ou até mesmo a paciência para ensinar às minhas filhas em casa.

Outro aspecto é o financeiro – tanto meu marido quanto eu trabalhamos e não podemos nos dar ao luxo de deixar os empregos no longo prazo para supervisionar as crianças e seus aprendizados. Mesmo assim, acho que educação formal e formação cultural precisam andar de mãos dadas – e, como quero participar ativamente da vida das minhas filhas, acho necessário conhecer várias formas de educar e de aprender.

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Além do ensino domiciliar

A desescolarização vai além do ensino em casa, já que quem determina sobre o que gostaria de aprender e quando (ou seja, o ritmo) são as próprias crianças. O objetivo é aprender vivendo – abandona-se a ideia de que aprender pela escola é a única forma de se obter sucesso profissional, e a formação é guiada pela própria criança e seus interesses.

Não há vastas estatísticas sobre o tema. No Reino Unido, por exemplo, há cerca de 36.600 crianças sendo educadas em casa, segundo uma pesquisa de 2015 citada pelo jornal The Guardian, que diz numa matéria sobre os “unschoolers” que o número real provavelmente é bem maior. Um texto na revista Superinteressante, de maio deste ano, dá conta de 2.500 famílias que “fugiram da escola” no Brasil, onde a matrícula no sistema de ensino também é obrigatória.

A preparação dos “unschoolers” para o mundo profissional parece também não deixar a desejar. “Segundo um estudo de 2013 do professor Peter Gray, do Boston College, que analisou os resultados de 75 adultos que tinham sido ‘desescolarizados’ quando crianças, o unschooling lhes trouxe benefícios para acessar o ensino superior e seguir carreiras profissionais ao promover seu senso de responsabilidade, sua automotivação e seu desejo de aprender”, cita o Guardian.

Razões para aprender em casa

Um outro texto do mesmo jornal aponta dez “bons motivos” para escolarizar as crianças em casa (de forma estruturada, não necessariamente da maneira “desescolarizada”). Entre eles, a flexibilidade de horários e até mesmo de planejamento das férias, que podem ser estendidas ou encurtadas livremente. A liberdade de estabelecer os horários de dormir e acordar das crianças – “especialmente horários compatíveis com os dos adolescentes, cujos relógios biológicos mudam com o início da puberdade” é outro aspecto favorável à educação domiciliar apontado pelo Guardian.

Aprender em grupos menores, individualizar o ensino e assim destravar as crianças que ficam com medo de fazer perguntas em classes grandes também são apontados como vantagens da desescolarização e do homeschooling (este último segue horários pré-definidos e um currículo preestabelecido em muitos países).

O professor de Ciências da Educação na Universidade de Bonn, Volker Ladenthin, afirma que existem escolas alemãs que tentam se adaptar mais às necessidades dos alunos. “Mas é difícil individualizar o ensino num grupo de 30 alunos, especialmente na puberdade”, considerou, durante conversa com ouvintes num programa da rádio alemã WDR5, no dia 20 de outubro.

O especialista afirma que esses aspectos do ensino fora da escola são temores que remontam à Grécia antiga, “durante a qual [também] já se tinha temores sobre os ‘amigos errados’ que as crianças poderiam ter, sem saber quem é que fazia parte dos grupos de alunos”.

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Escola e progresso

A obrigatoriedade de frequência escolar na Alemanha – que também existe no Brasil – tem razões históricas. “Os líderes na Europa do século 18 introduziram a obrigação porque perceberam que a condição para o sucesso econômico e militar era a escola. Naquela época, os pais não costumavam mandar as crianças estudarem porque dava mais dinheiro empregá-las nas atividades da família no campo, por exemplo. Obrigar os pais a mandarem os filhos à escola significou um salto no progresso da Prússia”, explicou Ladenthin.

Ele também afirma que, na Alemanha, se estabeleceu uma tradição de escolas públicas, já que o Estado assumiu o papel de guardião do acesso à educação – sem influências religiosas, por exemplo. “Inicialmente, esse papel era para garantir que as religiões não ‘cozinhassem a própria sopinha’ no âmbito da educação”, afirmou Ladenthin, que também comentou um aspecto apontado por detratores da desescolarização: segundo ele, existem pais que “privam” os filhos da escola para blindá-los de certos conteúdos – “o que não é necessariamente ligado a crenças religiosas, mas a valores, como a concorrência, que os pais querem [ou não] transmitir aos filhos”.

Por outro lado, proteger os filhos do bullying também poderia ser um dos motivos da opção pela saída da escola, por exemplo.

Finanças e acesso à educação

Os dois filhos de Volker Ladenthin frequentaram a escola. “Ensinar em casa não era uma opção, já que tanto minha esposa quanto eu sempre trabalhamos para garantir as finanças da família”, relatou o especialista em educação.

Também o Guardian pondera, ao elogiar o aspecto ‘flexibilidade’ da educação caseira, que “só funciona se um dos pais não tem um emprego em tempo integral, então há uma implicação financeira”.

O debate em torno da educação em casa também só se dá em países onde há boa estrutura de ensino, opinou uma amiga alemã que conheci em Portugal. “Eu costumava ouvir muitos conhecidos considerando o ensino fora da escola, mas sempre ficava pensando ‘mas, na Alemanha, as pessoas têm acesso a um sistema de ensino que funciona bem, elas podem ir à escola. E quem não pode?’”, questionou.

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Mistura de modelos?

Entre os aspectos negativos apontados pelos críticos do ensino fora da escola, também estão o fato de, por vezes, os pais não incluírem os filhos na decisão de tirá-los do sistema de ensino, já que há crianças que se adaptam bem à escola e outras não. Outros pontos são currículos restritos de homeschooling (ou até pais ‘incapazes’ como professores), o direcionamento de interesses das crianças de acordo com as visões dos pais e a dificuldade de avaliar a evolução dos alunos.

A matéria do The Guardian aponta um interessante caminho no âmbito do ensino domiciliar no Reino Unido: a ‘flexibilidade’ também diz respeito ao aprendizado da criança ou adolescente durante a idade escolar.

A frequência escolar não é obrigatória, então há a possibilidade de iniciar o ensino em casa e enviar a criança à escola mais tarde, ou até mesmo combinar as duas coisas, contanto que o diretor aprove (o que ele não precisa fazer quando se tira a criança da escola). “Não existe um imperativo legal para mandar as crianças para a escola no Reino Unido, mas é preciso oferecer uma educação aos seus filhos”, diz o texto.

Quando se retira as crianças da escola naquele país, é preciso notificar a direção da escola para “desregistrá-las”. A instituição se encarrega de notificar as autoridades locais. “Autoridades educacionais podem se envolver mais ou menos. Algumas são mais cooperativas, outras não”.

Para Ladenthin, “a escola perfeita seria uma escola com grupos de aprendizado pequenos. Até suspeito que os desejos de ensino domiciliar e desescolarização se dissipariam se houvesse grupos de oito a 12 alunos nos quais se pode individualizar o ensino para que o grupo se estimule mutuamente. Em grupos pequenos, a indisciplina é gerenciável e não aparece com tanta frequência. E há um aprender intensivo, adaptado às necessidades de cada um”, defendeu.

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