Por Renate Krieger

Pela manhã, enquanto as estrelas empalidecem no céu, não sei se ela chega a parar para contemplar a muralha rochosa visível de seu pequeno pátio no Paradise Valley, o Vale do Paraíso a cerca de 20 km ao norte de Agadir (sul do Marrocos). Imagino que ela não interrompa seus gestos rotineiros para ficar sem fôlego diante da impressionante paisagem que, a alguns quilômetros dali, atrai famílias marroquinas para piqueniques dominicais e turistas estrangeiros que passeiam à beira das águas cristalinas.

Foram quase quatro meses passados no Marrocos, o segundo país árabe que visitei e que me passou grandes lições de vida e sobre a maternidade. Meu olhar sobre as íngremes encostas do vale, espichando o corpo esperando ver o rio pouco caudaloso que forma as piscinas naturais e pequenas cachoeiras no fundo do cenário, encontrou flores, cactos, incontáveis pedras e, afinal, os espelhos d’água turquesas que tiram o fôlego não só pela aparência, mas pela temperatura gélida de quem, como eu, se aventurou a nadar neles num frio final de fevereiro.

Paradise Valley
Piscina natural no Paradise Valley, ao sul das montanhas do Atlas

É um olhar que viu mulheres carregando suas filhas e filhos pequenos nas costas, num pano amarrado diagonalmente, unindo quadril esquerdo e ombro direito, e ainda com um cobertor por cima da criança para protegê-la do frio numa tarde de muito vento e bom surf em Dakhla, no Saara Ocidental.

É um olhar curioso que se aguçou quando encontrou o co-fundador de uma associação que cuida de mães divorciadas e solteiras nas montanhas próximas a Erfoud, intermediando a venda de seus tapetes, bijuterias e produtos de cerâmica junto a turistas e compradores nas cidades.

É um olhar que pediu para conhecer uma casa de parto em Sidi Wassay, a 70 km ao sul de Agadir, onde o bebê é colocado no colo da mãe por pelo menos uma hora após o nascimento. A maior parte das gestantes da região é de origem rural, muitas vezes fala apenas o dialeto do povo berbere e só é submetida a cirurgias de cesárea na impossibilidade de se realizar o parto natural (nesse caso, as parturientes são encaminhadas para o hospital em Agadir, depois de consulta com o médico generalista de plantão na casa de saúde ao lado).

É um olhar que imaginou se essas gestantes pensam que gostariam de fazer outras escolhas para os seus partos, se gostariam de tomar algum analgésico ou alguma anestesia e como encaram questões como a amamentação, a administração de fórmulas, o baby blues e a depressão pós-parto.

É um olhar que viu carrinhos de bebê de última geração em grandes centros urbanos do Marrocos, como Marrakech e Rabat.

Casa de parto em Sidi Wassay
Casa de parto em Sidi Wassay

É um olhar que se indignou com a abordagem dos marroquinos em relação às minhas filhas – uma abordagem com a qual não concordo, mas que entendi como uma atitude até ingênua de grande parte das pessoas, que veem crianças como um “presente de Deus”.

É um olhar que enxergou crianças cuidando umas das outras, encantadas com bebês; um olhar que viu rostos infantis empolgados com a passagem de mais um carro-caravana estrangeiro, acenando e esperando às vezes uma carona, às vezes um doce (rebuçado) em troca.

É um olhar que viu meninos confeccionarem dromedários de palha nos oásis em Zagora, esperando vendê-los para nós, os “europeus”, e acabando por dá-los de presente à nossa bebê e à nossa filha mais velha.

E é um olhar que viu crianças brincando perto da estrada, à frente de casas típicas de terra batida, sem grandes janelas, instigando minha curiosidade sobre como é a vida no interior delas.

Meu olhar sobre o Marrocos é, em grande parte, um olhar de mãe. Mas é, sobretudo, um olhar de turista. De uma mulher com o luxo de tirar tempo para viajar e passar esse tempo com a família de uma forma intensa e que, acredito, só tem como fazer bem às minhas filhas. De alguém que pode dizer que um cotidiano regrado pode ficar para depois.

Casa de Fátima: vista para muralha de pedra
Casa de Fátima: vista para muralha de pedra

A marroquina que descrevi no início do texto se chama Fátima. A sua realidade, como a de tantas outras mulheres que tive o privilégio de conhecer no Marrocos (mas também em outros países), me lembrou o motivo pelo qual eu quis iniciar o Mães no Mundo junto com a Cíntia.

Foram realidades que me abriram os olhos e me ajudaram a ser uma mãe menos ansiosa, menos materialista, mais paciente e mais criativa. E que me fizeram querer aprender mais sobre como mães em todo o mundo criam os seus filhos, com todos os desafios e alegrias que vem junto com as crianças e com a maternidade.

Especialmente no Egito e no Marrocos, tenho a impressão de que a maior parte das mães vive realidades de maternidade bem diferentes da minha. Não saber falar árabe – aprendi apenas algumas frases no Egito – é, certamente, um dos fatores que me distancia dessas mulheres. Mas, nos dois países, por uma questão cultural – a mulher não vive fora de casa – achei difícil me aproximar de mulheres para conversar e trocar ideias sobre a maternidade.

Fiquei me perguntando, por exemplo: num país como o Marrocos, ainda marcado por uma mentalidade machista em muitos lugares, Fátima tem apenas uma filha, Khadija, de 14 anos. O que sentiu depois que foi picada por uma cobra enquanto cuidava das cabras nas montanhas do Vale do Paraíso? Quando ficou hospitalizada por cinco meses – um tratamento que a família teve de pagar do próprio bolso, a longo prazo – e levou injeções de antídotos durante uma semana, duas vezes ao dia, porque os médicos não sabiam qual era a cobra? Como encarou o fato de não poder mais ter filhos?

Quem me contou o ocorrido foi o marido de Fátima, Hussein, que nos convidou para comer um cuscuz em sua casa quando viu a caravana parada num estacionamento onde estavam vários desses carros de viagem com seus europeus dentro. Completa o orçamento conseguido com a venda de legumes nas cidades próximas oferecendo um jantar, feito pela mulher, para que os turistas tenham uma experiência de “ver como os locais vivem”.

Meu olhar sobre a casa de Fátima é um olhar de turista. Se espanta por a família possuir um forno – na verdade uma caixa de metal ligada a um botijão de gás –, já que a maior parte das pessoas assa o pão coletivamente, em padarias nos pequenos e grandes centros urbanos.

licoes4_forno.jpg
Forno marroquino: uma caixa de alumínio. Ao fundo, máquina de lavar roupas

Meu olhar romantiza o fato de ela ter uma máquina de lavar roupas de dois compartimentos encostada no pátio que dá acesso ao resto do domicílio: cozinha, despensa, depósito, além de um pequeno terraço (na verdade, o telhado do estábulo onde ficam as cabras) com vista para as montanhas e uma cheirosa horta de manjericão em garrafas de plástico, e um puxadinho de chão de terra com criação de coelhos. O banheiro fica ao lado, separado do puxadinho por um quarto com paredes de madeira que dá acesso ao jardim e ao estábulo.

Acha bonito a família viver à beira da estrada, mas numa casa cercada por um jardim coletivo rodeado por várias outras casas e onde as pessoas cultivam os mais variados legumes e temperos como coentro, por exemplo. Acredita ser interessante que as paredes de cimento grosso mantenham a temperatura muito agradável nas frias noites de inverno do Hemisfério Norte. E que a eletricidade da casa é paga com um cartão que Hussein recarrega por cerca de 50 Dirhams (moeda local, valor equivalente a cerca de 5 euros) uma vez ao mês.

Mas meu olhar entende as duas grandes lições que aprendi durante essa viagem: é possível viver com pouco e não esperar muito – especialmente as crianças, que não precisam de muito para crescerem felizes e saudáveis. E como sou privilegiada por ter nascido num contexto em que tenho um mundo de escolhas à minha disposição.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s