O home office é visto por muitas mães como uma opção para retomar a carreira e, ao mesmo tempo, passar mais tempo com os filhos, organizando os próprios horários e fugindo do tempo perdido no trânsito. Mas será que esse esquema de trabalho convém para todas? Será que essa é a melhor opção para enfrentar a hostilidade do mundo trabalho em relação às mães? Será que para muitas isso não vai acabar gerando mais estresse e acúmulo de carga mental?

Para dividir conosco a experiência de conciliar a maternidade com a vida profissional trabalhando de casa, a tradutora carioca Soraya Vidal conseguiu encontrar um tempo na sua rotina atribulada para escrever esse texto especial para o Mães no Mundo.

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Por Soraya Vidal, especial para Mães no Mundo

Trabalhar em casa sendo mãe não é mole. Isso vale também para pais na mesma situação, mas hoje vou falar a partir da minha perspectiva de mãe, com todos os seus altos e baixos, com suas surpresas, com todo o cansaço que me causa, mas também com toda as alegrias que me traz.

Há um ano e meio vivo a experiência de ser uma tradutora autônoma. E ainda: dona de casa, mulher, esposa e mãe em tempo integral. Tudo junto e agora. Sem empregada, sem babá. Foi um período muito intenso e de muito aprendizado, de conhecer o que ainda não conhecia sobre mim mesma e de vencer desafios diários.

A vida de quem trabalha em casa como autônoma é um grande esforço contínuo para manter o profissional e o doméstico em suas devidas “caixinhas”, sem se misturarem. No início parece absolutamente impossível. Depois de um tempo você percebe que não é impossível, mas é quase.

Tudo se resume a pequenas batalhas diárias para que nenhum prato deixe de ser equilibrado, que não caia, que não se quebre, como naquelas atrações de circo, sabe? O tempo todo, 24/7 e o cansaço vai tomando conta de você até que você ache que não vai conseguir. E o grande problema, além dessa potencial falta de separação desses microuniversos, é que não há almoço com o pessoal do departamento, nem mesmo manicure com a colega mais próxima. É você e sua realidade doméstica todo o tempo. Isso não torna o home office mais ou menos difícil que trabalhar em uma empresa, mas é, certamente, um desafio peculiar e bastante árduo.

Até que um dia, acordei para o fato de que dividir meu trabalho com meu filho e afazeres domésticos diariamente, no mesmo espaço físico, era um arranjo pouco factível, cheio de falhas, que me levava à frustração e exaustão. Era preciso reorganizar as “caixinhas” de forma mais produtiva, menos cansativa e que continuasse a me dar o prazer que tenho em estar com meu pequeno e de trabalhar com algo que me deixa feliz. Era preciso priorizar.

Acomodando prioridades

O mais complicado de tudo é acomodar filho e trabalho, uma vez que esses dois universos são minhas prioridades hoje. Consegui organizar a vida fazendo pequenas adaptações. Por exemplo: consigo trabalhar bem à noite e de madrugada. Aproveito, então, para trabalhar no período em que me marido está em casa depois do trabalho e “passar a bola” dos cuidados com nosso filho e estendo até cerca de três da manhã, quando os dois já estão dormindo e fica tudo mais silencioso. Pela manhã, acabo não tendo condições de acordar muito cedo, mas meu marido acorda, prepara e leva o pequeno para a escola, de forma que eu possa compensar um pouco o sono.

Durante o dia, como qualquer criança, meu filho demanda minha atenção. Eu ficava estressada de ter que dizer não tantas vezes. Comecei, então, a fazer pequenas pausas periódicas para jogar um jogo, assistir um desenho ou, simplesmente, conversar. Ele passou a perceber que logo “a mamãe vem para brincar” e isso reduziu muito sua ansiedade em relação à minha atenção. Os dois ficamos muito mais calmos e felizes assim. E o tempo de trabalho efetivo passou a ser mais produtivo por ter menos interrupções.

Usando a rotina a meu favor

Rotina era uma palavra que me assombrava até o nascimento do meu filho. Sempre me remeteu a algo tedioso, enfadonho. Até que o home office chega, a vida te atropela e você descobre que rotina é algo necessário para esse formato de trabalho. Diria até prazeiroso. Mas entendi também que organização e rotina têm que ser ferramentas para uma vida melhor, têm que estar ao meu serviço; não o contrário.

Quem trabalha em casa “não está” em casa

Quando você faz home office, todos os aspectos da sua casa ficam mais evidentes, mais presentes e os problemas, menos suportáveis, eu diria. A louça por lavar enquanto estou no escritório da empresa não incomoda como a louça que está no cômodo ao lado e que vejo a cada vez que faço uma refeição ou bebo água. Mas, assim como não resolvo isso quando estou no escritório da empresa, não preciso resolver quando estou no escritório em casa. É importante lembrar (e a todos os que são diretamente impactados por isso) que quem trabalha em casa “não está” em casa; está no trabalho.

Colocando a teoria em prática

É um exercício diário. É quase um mantra que eu preciso repetir na minha cabeça o tempo todo: “Isso não é prioridade”. Se não fosse por isso, seria constantemente desviada do meu trabalho para fazer colocar a roupa para lavar, por exemplo. No início, demorou um pouco, mas hoje consigo me focar mais e não deixar que o incômodo por uma tarefa doméstica deixada de lado me atrapalhe. Ou seja, é na base da disciplina mesmo: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

E os outros aspectos da vida? Como ficam?

Confesso que continuo pintando o cabelo ou decorando a casa com menos frequência do que gostaria, mas, como defini lá trás: essas não são prioridades para mim hoje.

Portanto, deixar essas atividades de lado não me agride como antes. Ainda assim, como minha rotina é um pouco mais organizada e não tenho tanto peso nas costas (só na balança) para carregar, essa quase serenidade me ajuda a encontrar mais tempo para essas outras atividades.

Antes, por exemplo, sempre me frustrava o fato de que não conseguia parar para ler um livro (e quando tentava, dormia). Como nem sempre posso parar no meio do dia de trabalho para isso, resolvi que os 45 minutos de espera na natação seriam o meu “momento leitura”. Não atrapalha meus prazos, nem a concentração no trabalho; não deixo de estar com meu filho na natação que ele tanto ama, mas uso esse tempo de forma produtiva e sem cobranças. Minha adaptação às condições adversas é o que tem me permitido ir além do binômio mãe-profissional e poder começar a me ver de novo em outros papéis, sem que isso significasse que aqueles pratos, lá do início do texto, estivessem em caquinhos no chão.

Isto posto, vocês devem estar pensando que a minha vida está completamente em ordem e que eu achei uma maneira perfeita de levar a vida. É claro que… não.

Eu continuo lutando contra os imprevistos, continuo correndo para lá e para cá para cumprir os horários do meu filho no meio do meu “expediente”, surtando quando a casa chega no estágio caótico e aproveitando qualquer dia sem trabalho para tirar o atraso de tudo o que está pendente na vida. A diferença é que, hoje, com o exercício de colocar cada coisa no seu devido lugar, isso tudo acontece enquanto eu aprendo a usufruir com muito prazer do que há de mais valioso para quem pode optar por trabalhar em casa e, mais ainda, quando de forma autônoma: tempo e independência.

Sempre que conhecia alguém que trabalhava de casa, sem trânsito e sem chefe, pensava o quanto devia ser ser bom, mas sempre me vinha à cabeça a máxima da grama verde do vizinho. Esse esquema não funciona para muita gente, mas descobri que funciona muito bem para mim. Aí, percebi que a grama verde do vizinho não era verde só porque era dele. Quando passou a ser minha, continuou verdinha, verdinha. E, por mais trabalho que dê cuidar dela, não troco por nada!

Soraya Vidal é formada em Comunicação Social pela UFRJ e atualmente se dedica à carreira de tradutora. Mãe do Tarso há cinco anos, e casada com o Alex há 11, encontrou no trabalho autônomo baseado em home office a combinação ideal entre sua vida profissional e a vontade de viver de perto o desenvolvimento de seu filho.

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