Por Renate Krieger

 Com o fim antecipado de uma temporada de um ano passada nos Estados Unidos com as nossas filhas em outubro de 2016, meu marido e eu começamos a nos questionar como organizar a nossa volta à Alemanha.

Porém, como nos demos conta de que a maior parte das tarefas que essa mudança envolve poderia ser realizada no longo prazo – um exemplo foi a busca de escolinhas para as meninas, que só conseguiram vagas para agosto deste ano –, decidimos desacelerar e fazer a transição sem pressa.

E, com todo esse tempo em mãos – tanto meu marido como eu tivemos o luxo de tirar licenças para cuidar das nossas filhas –, nada melhor do que realizar um sonho antigo do parceiro: passar uma temporada no Marrocos sem gastar muito e vendo o maior número de lugares possível.

Os quatro meses que calculamos ficar na estrada viraram sete, passados na Espanha, Marrocos, Portugal, França e Suíça (esta última, apenas nos últimos dias).

renatesurf
Após uma aula (muito descoordenada) de surf no norte da Espanha

Foram sete meses em que precisamos aprender a passar, os quatro, 24 horas juntos, em que o espaço era exíguo e em que, de início, a divisão (ou o complemento) de tarefas não estava bem claro (sim, isso causa estresse e discussões).

Também saímos da Alemanha com uma filha que, com três anos incompletos, ainda usava fraldas, e uma bebê de sete meses que vimos aprender a ficar de pé, sentar e ameaçar pular de dentro do motor-home para a rua. Adaptar uma casa sobre rodas à constante mudança de duas crianças pequenas não foi fácil.

Mas, agora que a viagem acabou, há poucas coisas que eu faria de forma diferente. Eis, abaixo, as principais lições que tirei da jornada:

  1. Desapego 1 ou: como preciso de pouco para viver (e criar as minhas filhas)

Lembro que, durante a gravidez da minha primeira filha, ouvia muito sobre as mais diversas parafernálias “absolutamente necessárias” para cuidar de um bebê.

Desde que morei no Egito, mas especialmente durante a viagem de motor-home, relativizei todos esses conselhos e dicas. Eu já tinha me tornado uma pessoa mais econômica depois de ser mãe, mas, morando em quatro metros quadrados com mais três pessoas, aprendi a economizar especialmente uma coisa: espaço.

Já no primeiro mês de viagem, vimos que era mais prático cada criança e cada adulto ter um compartimento para guardar as próprias roupas. Aquelas que se revelaram supérfluas (para os adultos) ou pequenas (das crianças) foram parar dentro da sacola de viagem, guardada numa caixa no fundo do porta-malas do carro. As pequenas demais foram doadas ou usadas como moeda de troca para comprar tapetes para o nosso futuro lar.

Levei um estoque de roupinhas um pouco maiores para a mais nova e senti falta de ter sapatinhos à mão para ela, que começou a engatinhar e ficar de pé durante o percurso. Mas o dilema teve solução: compramos um par de sapatos em Coimbra e íamos avaliando cada compra para ver se tínhamos mesmo necessidade de um determinado item – e espaço para guardá-lo até o fim da jornada.

Foi uma viagem que nos mostrou como podemos viver apenas com o mínimo, comprando itens quando era necessário e transformando em extremos aquelas frases que costumamos ouvir das nossas próprias mães (e repetidas inúmeras vezes por mim, durante a viagem): “Fecha a torneira para não gastar tanta água!” (usávamos a água do tanque para ir ao banheiro e lavar as mãos, tentando usar as duchas dos campings e as torneiras dos mesmos para lavar louça).

Ou: “Apague a luz!” – ter eletricidade suficiente para usar um mixer de mão (varinha mágica) era luxo. E aprendemos a viver sem conectar o carro à tomada tranquilamente.

maquinadelavar
Necessidade exige criatividade: nossa máquina de lavar (tonel, água, detergente e os solavancos da estrada)
  1. Desapego 2 ou: como mães no mundo inteiro precisam de pouco para viver (e criar seus filhos)

Eis uma máxima que eu já conhecia desde que morei no Egito, mas que ficou mais nítida durante a viagem ao Marrocos. No Delta do Nilo, por exemplo, o carrinho de bebê só não se tornou algo totalmente desnecessário porque eu não tinha carro, ia às compras a pé e não havia transporte público (só táxis). Passei a carregar minha filha mais velha (então com 4 meses) no canguru e colocar os legumes, verduras, carne e outros itens no carrinho para não ter que carregar tudo numa sacola e acabar com as minhas costas.

No trânsito louco de Damietta, usar um carrinho para a bebê era correr grandes riscos de ser atropelada, além de ter que lidar com a falta de calçadas (a minha rua era de areia), o equivalente a uma gincana de obstáculos quase intransponíveis. Ver uma mãe ou um pai empurrando um carrinho de bebê era raridade: encontrei uma egípcia fazendo isso apenas uma vez.

Outro exemplo são as papinhas prontas: em países como a Alemanha, há uma grande variedade de comida pronta para bebês e crianças pequenas, respeitando as fases de crescimento, papinhas noturnas etc. No Egito, no Marrocos e até nos EUA, a oferta é bem restrita. Recorri aos produtos comprados alemães para o início da viagem, mas aos poucos fui preparando tudo eu mesma com produtos locais – às vezes, sem precisar cozinhar.

  1. Não criar expectativas em relação ao desenvolvimento das crianças (ou: como relaxar e deixar que as crianças ditem o seu próprio ritmo)

Acredito que incorporar essa lição seja uma tarefa difícil para qualquer mãe. Quem não se compara às outras mamães, ou os próprios filhos aos filhos dos outros? E quem não fica ansiosa com o próximo passo do desenvolvimento da prole? “Quando será que vai andar, quando será que vai falar?” etc.

O motor-home nos obrigou a interiorizar esse conceito de forma radical – em certos momentos, num espaço tão apertado e cheio de almofadas, simplesmente não dá para vestir a camisa do “vou limpar assim que acontecer um acidente” quando se está tentando desfraldar uma criança.

A minha filha mais velha estava ensaiando tirar as fraldas há tempos (bem antes da viagem). Em casa e no motor-home, sempre estimulamos a ida ao banheiro (levamos até um penico), sem forçar e sempre tentando convencer. O desfralde acabou acontecendo de forma natural, no momento em que ela estava pronta a entender o que queríamos dizer (e a promessa de um presente também ajudou).

IMG_0486
Embora talvez não se lembrem das paisagens, as crianças viveram juntinho de pai e mãe
  1. O maior luxo do mundo é o tempo

A maior regalia que a Alemanha me proporcionou até hoje foi a licença maternidade. Por aqui, pode-se tirar três anos por filho e o casal pode tirar esse tempo em conjunto (mas só um ganha o benefício de ser remunerado com 65% do salário durante o primeiro ano da licença).

Tirar esse tempo para fortalecer os laços da família é maravilhoso. Pelo fato de serem tão novas, minhas filhas provavelmente não vão se lembrar das lindas paisagens do Marrocos, mas tenho certeza de que a família que construímos diariamente durante a viagem ficou mais forte – apesar de elas conviverem pouco com outras crianças e isso ter me preocupado um pouco. Foi maravilhoso podermos nos dedicar a elas com calma e tempo, descobrindo as coisas boas da viagem juntos.

(Paradoxalmente, o revés dessa moeda era que sobrava pouco tempo para mim sozinha. Acho que consegui fazer uma ioga umas duas vezes apenas. Mas tirar tempo para atualizar o blog, por exemplo, também não era tarefa impossível – bastava ser organizada, dividir os cuidados das crianças com o marido e tentar ser o mais produtiva possível, outra lição preciosa da viagem).

  1. As saudades da família e dos amigos ficam maiores

Sair sem data para voltar é uma aventura e uma felicidade, mas a distância da família e dos amigos queridos é difícil de lidar. Felizmente, a tecnologia de hoje permite um contato constante, ainda que não físico, e o reencontro da nossa filha mais velha com os avós foi emocionante – sinal de que ela não perdeu o vínculo estreito que tem com eles.

  1. Viajar é ter uma família global

Em sete meses, deu para conhecer muita, muita gente nova, com muitas histórias de vida diferentes das nossas e que só enriqueceram o nosso olhar sobre o mundo e sobre a vida (você pode ler duas destas histórias aqui e aqui).

Aliás, a viagem só fez reforçar o propósito desse nosso blog: contar histórias do mundo todo e apresentar maneiras diferentes de viver a maternidade, além de ensinar às nossas filhas sobre tolerância, diversidade e cultura.

Além disso, viajar com crianças também nos proporcionou um monte de vovôs e vovós postiços, tias e tios, e amigos novos (e antigos!) e queridos com quem pudemos dividir a tarefa de cuidar das crianças.

balsa
A balsa que transita entre Espanha e Marrocos
  1. Por uma vida mais simples

Conseguimos concretizar objetivos que nem sabíamos que tínhamos: desacelerar. E encarar o mundo de forma mais simples, mais desapegada e, sobretudo, mais paciente. Além disso, passamos a valorizar coisas que muitas vezes nos parecem óbvias – como não ter de escolher entre dar banho nas crianças e sair no vento gelado de dezembro no Marrocos, por exemplo.

Espero que possamos nos lembrar dessas lições no cotidiano atribulado em que estamos prestes a entrar. E que o façamos de forma leve, como a nossa viagem, que nos ensinou sobretudo que, quanto menos você carregar, melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s