Por Cíntia Cardoso

Muitas mães estrangeiras na França ficam inseguras na hora de terem um filho. Longe da família,  às vezes pouco familiarizadas com as praticas médicas locais e o idioma, essas mulheres temem a hora do parto. Mas essa insegurança também é partilhada pelas gestantes francesas que também podem enfrentar momentos difíceis durante o parto e a gestação.  Reportagem publicada nesta terça no jornal Le Monde traz um panorama da situação obstétrica francesa.

Um relatório divulgado recentemente pela HAS (Alta Autoridade de Saúde na França) revela o interesse das autoridades de diminuir as “intervenções técnicas”, como a episiotomia, para “respeitar o ritmo natural do nascimento. Essa é uma boa novidade para as mães que desejam ter um parto mais natural. Ao redor de 20%, a taxa de episiotomia ainda é considerada bastante elevada para os padrões internacionais.  Infelizmente os relatos de violência obstétrica ainda são muito comuns tanto aqui na França quanto na Espanha.

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Raio-x do parto na França

Dados 2016 na França mostram que houve:

785 000 nascimentos. 1 % deles fora da maternidade (partos domiciliares, casas de parto ou a caminho do hospital)

20,2 % de cesarianas. Essa taxa pode chegar a quase 30% em alguns estabelecimentos particulares

82 % de anestesia peridural. A região Île de France, onde fica Paris, é a campeã no uso do procedimento.

20 % de episiotomias. A incisão feita no períneo tem o objetivo de facilitar a passagem do bébé durante o parto normal. A taxa considerada ideal, no entanto, nan deveria ultrapassar 10% dos partos. Na França, segundo estatísticas oficiais, o uso de episiotomia pode chegar a 34,9% no primeiro parto e 9,8% a partir do segundo.

Maternidades tipo I, IIA, IIB, III. As maternidades na França são classificadas conforme o grau de assistência médica e técnica oferecido. As maternidades tipo 1 são para casos de gravidez sem complicações. Já as de tipo 3 são aconselhadas para casos de gravidez de risco (diabetes materno, hipertensão etc) e contam com um dispositivo mais sofisticado de reanimação e internação neonatal.

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Curiosidades sobre a gravidez na França

-A maioria das mães tem filhos em hospital públicos e o parto é realizado pela equipe de plantonistas.

-Para as mães que escolhem ter filhos no setor privado, a escolha do obstetra que fará o parto pode acontecer apenas a partir do sexto mês de gravidez.

-Muitos vezes o parto (natural) pode ser inteiramente conduzido por sage-femme (enfermeira obstétrica).

-No pré-natal, a mãe realiza exames de sangue mensais caso a mãe não seja imunizada contra a toxoplasmose. Também é comum fazer uma análise biológica do canal vaginal no final da gravidez.

-Um curso de preparação para o parto, consulta odontológica e visitas domiciliares de uma enfermeira para acompanhar a recuperação pós-parto e a amamentação são inteiramente cobertos pelo sistema público de saúde.

-Sessões para reeducação do períneo são cobertas pelo sistema publico de saúde tanto para mães que tiveram parto normal quanto para aquelas que tiveram uma cesariana.

-A licença-paternidade é de apenas 11 dias, mas um abaixo-assinado pede uma mudança na legislação.

-Entre os países ricos da Europa, as taxas de amamentação na França estão entre as mais baixas.

-A partir do sexto mês de gravidez, mas gestantes têm a carga horário de trabalho reduzida.

-A licença-maternidade é curta (cerca de 4 a 5 meses, dependendo da empresa), mas existe a possibilidade de uma licença de até 3 anos (sem vencimentos) mas que garante a sua vaga na empresa. Também é muito comum adotar uma jornada de trabalho reduzida  (com redução proporcional de salário) ao final da licença-maternidade.

Minha experiência de mãe na França

Durante a gravidez

Na minha primeira consulta com o obstetra em Paris, ele foi bem direto: “Sei que no Brasil a cesariana é a regra, mas aqui é a exceção, d’accord?”. Minha resposta também foi direta: “Não tenho nenhum problema com parto normal. Só não quero um parto de filme de época”. E assim iniciei a relação com o médico que fez meus dois partos numa maternidade particular em Neuilly sur Seine, cidade vizinha de Paris.

Sendo algo hipocondríaca, eu quis um médico que me acompanhasse do começo ao fim da gravidez, que conhecesse de cor minhas alergias, históricos, inseguranças etc. Também queria uma clínica que não fosse muito grande, que contasse com profissionais atenciosos, que fosse bem perto da minha casa e não muito longe do meu trabalho. Depois de algumas visitas, achei o lugar ideal para mim.

Meu relacionamento com o médico sempre foi bastante profissional. Mesmo não tendo aquele calor humano que algumas amigas que tiveram filhos no Brasil relatam, meu obstetra sempre foi muito cortês, paciente com as minhas escolhas, bem didático e atencioso. Mas sem essa de ter o numero do celular desse. Aliás, ter o número pessoal do médico é algo de que nunca ouvi falar aqui na França. Em caso de urgência, eu tinha acesso a um telefone especial da clínica. O número serviu para me acalmar durante um rebate falso e para eu avisar que a minha bolsa havia rompido. É a clínica que entra em contato com o médico.

A maternidade que escolhi também tinha um serviço de psicologia que foi muito útil no final da gravidez e nos dias de internação na clínica. Usei o dispositivo de apoio psicológico para minhas duas gravidezes. O baby blues (ou melancolia pós-parto) não é brincadeira e não deve ser negligenciado.

Os partos

No meu primeiro filho, tentamos um parto normal por mais de 24 horas. Sem nenhuma dilatação (nenhuma dilatação mesmo), apesar de indução química do parto, meu baby nasceu por cesariana. Eu estava bem estressaada, mas aí entrou o profissionalismo do médico que me explicou todo o procedimento. Minutos após o fim da intervenção cirúrgica, meu bebê já estava nos meus braços mamando na sala de recuperação.  No dia seguinte, eu já estava muito bem, obrigada. Tomei meu banho sozinha e até fiz minha escova. O começo da amamentação foi difícil, mas a clínica me deu muito apoio. Todos se envolveram: do anestesista às enfermeiras. Em casa, tive o apoio da minha mãe que veio correndo do Brasil.

No meu segundo filho, uma pubalgia, espécie de inflamação dos ligamentos da bacia, me afastou do trabalho aos seis meses de gestação. Mas, como minha gravidez não era de risco, mantive a mesma clínica e o mesmo médico. E a história da falta de dilatação  após horas de trabalho se repetiu. Resultado: nova cesariana, contrariando todas as estatísticas francesas.  E mais uma vez a recuperação foi excelente.

Assim como para meu primeiro filho, uma fisioterapeuta me ajudou a dar meus primeiros passos após a cesariana, as enfermeiras me ajudaram muito na amamentação que foi, mais uma vez, bem difícil no começo.

Felizmente, tenho lembranças mais do que positivas dos meus dois partos. Fui tratada com respeito, não me impuseram nenhum procedimento médico e pude ficar agarradinha com meus bebês assim que as cirurgias terminaram.

Para mim, acho que o único ponto mais estressante da experiência na França tenha sido o volume de exames médicos ao longo da gravidez. A cada teste, eu ficava bastante ansiosa. Também foi difícil encontrar atividades físicas específicas para grávidas.

Na avaliação de algumas amigas brasileiras, faltou ‘glamour’ ao meu parto. Apesar de a  clínica onde eu tive meus filhos ser considerada de alto padrão, não existe o luxo das maternidades classe A brasileiras. Não tem maquiador, nem cabeleireiro, nem fotógrafo profissional, nem decoração na porta do quarto ou foto do bebê no site da clínica.

Mas, sendo bem sincera, esses mimos não me fizeram a menor falta.

Conselho de mãe: Cada gravidez é única, logo, se possível, se informa ao máximo sobre a maternidade, os médicos, a equipe de saude, os procedimentos médicos etc. Se você o seu domínio do idioma não for suficiente, leve outra pessoa (uma amiga que fale bem, por exemplo) para te acompanhar nas consultas. Também procure grupos de apoio, redes de informação . Não fiquem sozinhas!

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