Por Renate Krieger

Desde que me tornei mãe pela primeira vez, há quase quatro anos, acho que nunca tive mais do que algumas horas sem assumir esse novo papel. Mesmo voltando a trabalhar em tempo parcial ou quando estou em casa e as crianças estão na creche, sempre acaba havendo alguma tarefa da maternidade a ser cumprida, mesmo que seja fazer um checkup daquela lista mental das mães que nunca acaba.

Não trocaria a minha vida atual por nada nesse mundo, mas mesmo o melhor dos trabalhos pede uma pausa de vez em quando para colher novas inspirações e energias, não é mesmo?

Nesse Carnaval, a minha folia foi uma estreia: passar três noites sem as crianças porque apareceu a oportunidade de viajar com uma amiga da adolescência, também mãe.

Entre me sentir a pior das mães por não estar com minhas filhas, que ficaram com o pai, e ter momentos de surpresa e liberdade, eis algumas reflexões que me vieram à mente.

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Vista do rio Neckar e da cidade de Heidelberg a partir do burgo
  1. Culpa e medo ou: querer voltar antes de ir

Antes de pegar o trem para Heidelberg, na última quinta-feira (08/02), confesso que fiquei muito mais apreensiva do que costumo ficar quando as deixo por algumas horas, como na creche.

O motivo é que, pela primeira vez, eu não dormiria em casa com elas, especialmente a mais nova, de quase dois anos (com a mais velha, fui a duas festas com o marido, mas sempre voltamos de madrugada, então não estou incluindo na conta).

Minha apreensão não se deveu ao fato de elas estarem com meu marido – ou seja, seguindo a rotina conhecida delas – mas sim ao fato de eu já estar com saudades antecipadas e nem conseguir imaginar estar longe. Valorizei imensamente a coragem do maridão de viajar a trabalho e ficar longe da família várias semanas. Ao mesmo tempo, no fim da viagem, sei que foi bom para os três passarem tempo juntos sem a mamãe para estreitarem laços e o papai se virar com situações que nem sempre enfrenta no cotidiano.

  1. Liberdade

viajamos muito em família sem planos rígidos – e, por causa das crianças, é mesmo preciso se tornar alguém mais flexível. Mas minha cabeça de mãe sempre tinha e sempre tem uma agenda mental e sempre está de olho no relógio, preocupada em saber quando dar de comer às meninas, que elas estão bebendo o suficiente, com que lanche levar, em trocar a fralda da mais nova ou ir ao banheiro com a mais velha, se elas estão com a roupa adequada para não passar frio ou calor demais, se a família tem um programa que não entedie a criançada, o que há de “child friendly” no entorno, se elas não estão prestes a se machucar no parquinho ou a sair correndo para a rua e outras milhões de coisas que nem vou conseguir lembrar agora.

Exatamente por ter interiorizado tantas preocupações e tarefas, não ter que cumpri-las foi, sim, um alívio: comi o que eu quis no momento em que estava com fome, bebi vinho em cerveja sem pensar se eu ficaria muito cansada depois ou se teria que dirigir, entrei em várias lojas sem me preocupar em controlar as crianças e sair sem quebrar nada e também não me pressionei a fazer um programa turístico para conhecer toda a oferta cultural da cidade histórica de Heidelberg (mas mais porque o objetivo do fim de semana era relaxar e botar o papo em dia com a amiga. Esse “tempo livre” também teria servido para fazer um mergulho cultural num museu, por exemplo, coisa que nem sempre é possível fazer com crianças).

Macaron de marzipã com flor de laranja comprado numa loja de especiarias em Heidelberg
Vivi na França, mas esse foi um dos macarons mais deliciosos que já comi
  1. Nada será como antes – e isso é bom

Quem lê um relato desses pode até pensar em desistir de ser mãe ou que eu não goste da maternidade. Pelo contrário: ter essa pausa da função é que me mostrou mais ainda como ser mãe faz com que eu seja a melhor versão de mim mesma.

Parece paradoxal. Mas a maternidade me fez renascer uma pessoa mais paciente, mais madura (espero) para dar um conselho num papo com uma amiga, por exemplo, mais empática e mais comedida na hora de gastar dinheiro (leia mais no item 4).

  1. Criançada sempre presente

As fotos acima mostram que, das fotos de flores às lembrancinhas, as crianças sempre vem em primeiro lugar.

A maternidade fez com que eu abrisse espaço para as vidas de duas novas pessoas. Exatamente por isso, elas estão sempre presentes. No café da manhã do hotel, comi um pedaço de laranja que tinha os gomos em forma de coração – mandei uma foto para o meu marido na hora porque pensei que as meninas fossem gostar de ver.

E as crianças também são prioridade na hora das compras. Eu nunca fui perdulária, mas antes de ser mãe não tinha uma preocupação tão grande com compras mais superficiais. Durante a viagem, fora com a comida, não gastei quase nada comigo mesma. E a primeira coisa que me chamou a atenção foram luvinhas forradas que vi numa lojinha de suvenires, que comprei porque as meninas estão precisando.

  1. Mais energia

Voltei morrendo de saudades da família, sim, e senti uma falta imensa deles durante a viagem. Mas também voltei com mais energia e paciência e a certeza absoluta de que não trocaria de lugar com ninguém.

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